Fichamento 10 – FICHAMENTO DO TEXTO “DA CULTURA DAS MÍDIAS À CIBERCULTURA: O ADVENTO DO PÓS- HUMANO”, DE LÚCIA SANTAELLA

FICHAMENTO DO TEXTO “DA CULTURA DAS MÍDIAS À CIBERCULTURA: O ADVENTO DO PÓS- HUMANO”, DE LÚCIA SANTAELLA

João Gabriel de Abreu e Tréz – Comunicação Social, Jornalismo.

Professor Riverson Rios

Teorias do Jornalismo

10/10/2014

O desenvolvimento das tecnologias está afetando diretamente várias, se não todas, esferas da sociedade. Mesmo sendo taxada como lugar-comum por Santaella, é a partir dessa ideia que a autora constrói seu texto. No início, ela chega direto à conclusão de que esse desenvolvimento, e o da comunicação, reverbera por toda a estrutura social, mas nas sociedades capitalistas avançadas.

A autora, então, discorre largamente sobre o conceito de cultura de mídias, criado por ela anos atrás, e que possui relação com a nova ideia de pós-humano, principal foco do artigo. Ela mesma afirma que o trabalho mais recente funciona como uma continuação do primeiro, por ambos tratarem da questão das tecnologias e seu desenvolvimento de modo semelhante, sendo que o segundo seria um passo à frente nessa pesquisa.

Para ir aos poucos para o ponto central, Santaella destrincha as ideias de cultura de mídias, refletindo sobre a importância do meio, utilizando-se de dogmas epistemológicos e citando, obviamente, McLuhan, importante nome e autor da célebre frase “o meio é a mensagem”. Santaella percebe que para McLuhan, a ênfase no meio tem relação com a impossibilidade da separação da mensagem e do meio, já que a mensagem seria determinada intensamente pelo meio na qual é veiculada do que pelas intenções de seu autor.

Santaella debruça-se sobre o meio em si, explicitando seu lugar de importância. O meio seria o suporte material, canal físico, no qual a linguagem é corporificada e através do qual ela transita. Sendo assim, o meio é o componente mais superficial da comunicação, por ser aquele que aparece primeiro no processo comunicativo. Logo, o meio é apenas o canal, não possui significado se não fossem as mensagens. Apesar do desenvolvimento dos meios significar o crescimento da divulgação das linguagens, códigos e mensagens, os meios prosseguem sendo primários na equação geral da comunicação, e julgá-los importantes a ponto de influenciar a mensagem seria, segundo ela, ingênuo e equivocado.

As décadas de 80 e 90 ficaram marcadas pela chegada das mais diversas mídias como as fotocopiadoras, os videocassetes, o walkman, enfim… Essas novas tecnologias, e também as linguagens criadas para circularem nelas, têm como característica central a disponibilidade da escolha e do consumo individualizado. Ou seja, as novas mídias determinam audiências mais segmentadas, menos massivas.

Posteriormente a isso, Santaella mostra as três reações à ciberrealidade, pensadas por Heim: os realistas ingênuos, os idealistas e os céticos. Os realistas ingênuos “tomam a realidade como aquilo que pode ser experienciado imediatamente e alinham os computadores com os poluidores que são jogados no terreno da experiência pura, não mediatizada”. Os idealistas consideram o mundo cibercultura como o melhor dos mundos, apontando ganhos evolutivos da espécie a partir dele, são em suma otimistas. Os céticos são convictos de que as tentativas de compreender o mundo das redes são sempre inócuas, e que o ciberespaço passa por um momento confuso.

“As máquinas vão ficar cada vez mais parecidas com o ser humano, e não o contrário.” (p. 30) A frase destacada revela um dos caminhos pelos quais Santaella segue para desvendar, ou intentar desvendar “o que está acontecendo à interface ser humano-máquina e o que isso está significando para as comunicações e a cultura do início do século 21?” (p. 30), como ela mesma pontua.

O termo “pós-humano” vem da arte, área que influencia fortemente a autora, que a vê como “criadora de problemas” e “território privilegiado para o exercício da ousadia do pensamento”. A autora usa essa expressão, segundo a própria, de modo deliberado e estratégico para conseguir chamar a atenção para o fato de que é impossível, no atual momento, nos furtamos à reflexão sobre as modificações pelas quais o ser humano vem passando, tanto as mentais quanto as corporais e até as moleculares. O humano hoje é “pós”, não por ter ficado ultrapassado e sim no sentido de passo a frente, sempre.

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Fichamento 09 – FICHAMENTO DOS CAPÍTULOS 1, 4 E 5 DO LIVRO “CULTURA LIVRE”, DE LAWRENCE LESSIG

FICHAMENTO DOS CAPÍTULOS 1, 4 E 5 DO LIVRO “CULTURA LIVRE”, DE LAWRENCE LESSIG

João Gabriel de Abreu e Tréz – Comunicação Social, Jornalismo.

Professor Riverson Rios

Teorias do Jornalismo

03/10/2014

No primeiro capítulo, Lessig faz um paralelo da questão da posse atualmente com a posse nos idos dos anos 1900, época em que a propriedade de terra era central. Em dado momento, a lei americana dizia que o dono de uma terra não possuía apenas aquele pedaço “pisável” de solo, mas como também “todo o chão abaixo, até o centro da terra, e todo espaço acima, por “uma extensão indefinida para cima.” Com o advento dos aviões, tal lei passou a ser questionada, pois para um avião sobrevoar nos céus, ele teria que pagar por isso, já que estaria “invadindo” a propriedade alheia caso sobrevoasse sobre alguma terra privada. A lei, que hoje em dia parece quase ridícula, mas que na época era defendida arduamente, acabou sendo revogada, colocando o “ganho público óbvio” acima dos interesses privados – o que virou um marco na questão de propriedade.

Outro exemplo dado por Lessig é o da radiotransmissão, inventada por Howard Armstrong. Nos anos 30, ele apresentou então ao público as ondas FM, o que causou rebuliço à época, tanto que o dono da RCA, empresa que dominava as rádios nos EUA, não gostou do que viu, temendo que o FM pudesse ser concorrência forte. Armstrong e a empresa, então, travaram algumas lutas sobre patente e propriedade. O inventor, um homem só, acabou perdendo para a grande empresa, e, falido, suicidou-se na década de 50.

Adentrando, finalmente, no terreno da cultura livre, Lessig distingue cultura comercial da não-comercial. A primeira é a cultura produzida para ser vendida, enquanto a segunda, obviamente, é todo o resto que pode ser entendido por cultura mas que não é comercializada, como histórias contadas dos mais velhos para os mais novos. A lei regia a cultura comercial, enquanto a não-comercial era considerada livre. Com o advento da Internet, as noções de cultura inevitavelmente mudaram. Pela primeira vez, a cultura livre teria que sofrer regulamentação. A justificativa é a proteção da criatividade comercial, que garante os direitos exclusivos da cultura aos seus criadores. De fato, o que ocorre é que o poder da Internet é inegavelmente grande e transformador. Com ela, os processos de produção de cultura se alteram e podem ser até coletivos e colaborativos. Isso afeta de modo direto as grandes empresas, e é aí que reside o principal motivo da regulamentação: as empresas passaram a temer uma possível (e inevitável) perda de espaço e até lucro. Cria-se então a cultura da permissão, aonde para ser livre, você deve, antes, ser permitido a ser livre. A guerra que se trava, finalmente, é a da propriedade versus a pirataria.

Pirataria basicamente é vista como a tomada do trabalho criativo de alguém sem permissão desse alguém, seu criador. Vendo por esse ângulo, as grandes indústrias de entretenimento, segundo Lessig, foram construídas em cima de processos “piratas”, desde a indústria fonográfica passando pela de cinema. Apesar da crítica clara à guerra contra a “pirataria”, Lessig admite que o roubo de material sob copyright (a pirataria comercial) é completamente errado. Mesmo assim, ele cita que uma outra forma de pirataria, diretamente relacionada à Internet, também parece errado, mas não o é necessariamente, devendo ser compreendido e analisado.

A antiga lei de copyright proibia a republicação comercial, mas permitia a transformação. A nova, por sua vez, afeta a criatividade não-comercial, além de ter regras pouco claras e de ameaçar aqueles que infrinjam-na com punições severas. O copyright, basicamente, diz que os direitos de uma obra são exclusivos de seu autor, e para uma utilização feita por outros, é a ele que a permissão deve ser pedida.

A pirataria considerada não errada é aquela que pode ser útil e produtiva para a sociedade, criando um novo conteúdo ou novas maneiras de negócios, como o modelo P2P, que foge do controle da indústria, explora novas maneiras de distribuição de conteúdo, mas que não

São listados quatro tipos de consumidores de conteúdos P2P, divididos em: A- aqueles que baixam direto ao invés de comprar; B- baixam para provar antes de comprar; C- baixam se o produto não estiver mais à venda ou for muito caro; D- baixam se o produto já for gratuito ou sem copyright. O tipo A é visto como claramente ilegal e prejudicial para a Indústria. O B e o C são também ilegais, mas o olhar é mais brando, considerando que eles seriam até benéficos. O D é o único considerado legal e plenamente benéfico, por não causa nenhum prejuízo.

O fato é que a lei deve sim existir, mas não do modo fechado como se pretende, e sim adaptada às novas tecnologias, assegurando o direito dos criadores mas também protegendo a inovação e a criatividade, além de procurar um novo olhar para a promoção e distribuição de conteúdo na rede. Devemos pesar o quanto a sociedade ganhou, o quanto a Indústria de fato perdeu e adequar-nos ao nosso tempo.

Fichamento 08 – FICHAMENTO DO TEXTO “REDES SOCIAIS NA INTERNET”, RAQUEL RECUERO

FICHAMENTO DO TEXTO “REDES SOCIAIS NA INTERNET”, RAQUEL RECUERO

João Gabriel de Abreu e Tréz – Comunicação Social, Jornalismo.

Professor Riverson Rios

Teorias do Jornalismo

01/10/2014

A ideia de rede nasce, sobretudo, a partir de conceitos matemáticos, como o dos grafos. Já as redes sociais têm como base a própria sociologia, e podem ser divididas em duas visões de objeto de estudo: as redes inteiras e as redes personalizadas. As primeiras têm como foco a relação estrutural da rede com o grupo social; as redes aqui revelam-se como “assinaturas de identidade social”. Já as segundas focam no papel social do indivíduo a partir não apenas das redes às quais ele faz parte, mas também das posições hierárquicas que ele tem dentro de cada uma delas.

Há, como em todo fenômeno recente, algumas divergências entre as principais correntes de ideias acerca das redes sociais. Como exemplo, alguns defendem que a menor estrutura relacional numa sociedade seriam as chamadas “díades”, onde a relação entre duas pessoas seria a estrutura básica de uma rede. Já outros sociólogos defendem a ideia de que essa estrutura básica seria, na verdade, triangular, já que se duas pessoas desconhecidas têm um amigo em comum, a probabilidade de elas se relacionarem aumenta.

Discorrendo sobre as redes, a autora afirma que a condição primária de uma rede social é a interação social, ou seja, a conexão entre pessoas proporcionando comunicação e criação de laços sociais. A primeira rede analisada é o Orkut, onde a autora já explicita de início a questão das conexões diretas e indiretas ocorridas na rede. Citando dois casos específicos, Recuero reflete sobre a real interação ocorrida entre os perfis do Orkut. Aceitar “amigos” na rede social que você mal fala na vida real não estimula a criação de laços nem de interação de fato.

Os modelos expostos pela autora mostram-se insuficientes, mas revelam que as relações na comunicação mediada por um computador entre diferentes indivíduos não são aleatórias; elas, na verdade, ocorrem a partir da reflexão sobre diversos fatores que influenciam a conexão ou não a alguém nas redes. Isso demonstra que os laços sociais fortificam-se a partir de um “prisma muito específico de interesses comuns de cada nó”.

EXERCÍCIO 04 – REDES SOCIAIS

A rede social por mim analisada foi a Livemocha. Essa rede tem como principal característica o aprendizado de novas línguas. Quando você se cadastra, o site pede algumas informações básicas, como email e senha, mas também pede que você indique sua língua nativa e a língua que você pretende aprender. De início você não pode colocar uma foto própria no perfil – no lugar dela, estão disponíveis ilustrações distintas. Finalmente, seu perfil mostra: a ilustração escolhida, a língua a ser aprendida e o seu grau de conhecimento nela. Chamar Livemocha de “rede social” me deixa um pouco dividido, já que, em relação às características do que é um SRS, o site se encaixa em algumas, mas não se encaixa nas mais importantes, como a de interação. Não que ela não ocorra, já que você só aprende outras línguas a partir de lições criadas por outros usuários, além de receber feedbacks desses usuários dos exercícios feitos, e de também fornecer feedbacks para usuários que estejam aprendendo a sua língua nativa. Há uma forte rede de colaboração, mas não necessariamente uma conexão ou interação entre perfis, como ocorre no famoso Facebook.

Fichamento 07 – FICHAMENTO DO TEXTO “O CULTO DO AMADOR”, DE ANDREW KEEN

FICHAMENTO DO TEXTO “O CULTO DO AMADOR”, DE ANDREW KEEN

João Gabriel de Abreu e Tréz – Comunicação Social, Jornalismo.

Professor Riverson Rios

Teorias do Jornalismo

01/10/2014

Na introdução de seu livro, Keen cita o teorema do macaco infinito, que diz que se fossem dadas infinitas máquinas de escrever a infinitos macacos, alguns deles, poucos, conseguiriam criar uma obra-prima digna de Shakespeare. A menção ao teorema é justificada pelo fato de que Keen considera que o atual panorama da Internet é semelhante à ideia, onde as máquinas agora são computadores conectados e os macacos são os seus usuários, o que explicita o que o autor chama de “achatamento da cultura”, que segundo ele embaça as fronteiras entre o especialista e o amador.

Os milhões de usuários da Internet, assim como os macacos infinitos, criam em sua maioria coisas sem valor, mas no contexto da rede, essas coisas têm espaço e são compartilhadas pelos outros usuários. Cria-se uma “interminável floresta de mediocridade”, segundo o autor. O principal exemplo que ele utiliza para criticar o amadorismo inerente à rede é o blog, que sintetiza os problemas do culto ao amador. As postagens desse tipo de site “corrompem” e “confundem” o público, que fica dividido entre as informações repassadas por jornalistas “profissionais objetivos” e aquelas postadas em blogs de desconhecidos que apenas repassam suas opiniões. Outra ferramenta criticada com fervor por Keen no texto é a Wikipedia – para ele, a enciclopédia mais famosa da web não passa de um cego guiando o outro, perpetuando a ignorância e a desinformação.  As palavras duras de Keen não param aí, e voltam-se em dado momento ao Youtube, reduto dos vídeos amadores e que exemplifica um dos pontos centrais da crítica de Keen à Internet: o narcisismo na rede.

Nos blogs, os internautas postam, segundo ele, futilidades de suas próprias vidas; o slogan do Youtube é “Broadcast yourself”, estimulando os usuários a mostrarem a si mesmos; as redes sociais, novidades na época, eram o suprassumo do “culto da autotransmissão”. Em resumo, trocamos o especialista e o conteúdo relevante pelo narcisismo, pelo fútil e pelo amador.

A promessa de democratização que a Web 2.0 trouxe agitou os ânimos dos intelectuais e nerds da época – a ideia de democratizar a grande mídia e até mesmo o governo, vista por Keen como “a grande sedução”, realmente provocava um furor naqueles envolvidos com a web. O problema seria que essa utopia depreciava “a expertise, a experiência e o talento”, muito por conta da questão da troca do profissional pelo amador, já colocada acima. Para Keen, “o que a revolução da Web 2.0 está realmente proporcionando são observações superficiais do mundo, em vez de uma análise profunda, opinião estridente, ou um julgamento ponderado”. (p. 4-5) Como esperado, Keen ainda prossegue sua crítica com frases de efeito e palavras pesadas, ao afirmar que a consequência da Web 2.0 seria “menos cultura menos notícias e um caos de informação inútil. Uma realidade arrepiante nessa admirável nova época digital é o obscurecimento, a ofuscação e até o desaparecimento da verdade.”  (p. 5)

Keen prossegue exemplificando suas posições e atacando constantemente os pontos dessa nova era do “culto do amador”, chegando a soar repetitivo, cansativo e até mesmo amargo. Concluindo seu pensamento, o autor demonstra sua insatisfação com o fato do público passar a também “dirigir” o show, caractertísica, como visto em textos anteriores, louvada por outros autores, que demonstravam a importância da participação do fã na trajetória de um produto cultural. Keen, apesar das críticas que fiz a ele, se coloca como interessante contraponto à ode à Internet, vista por muitos apenas como uma ferramenta positiva.

Fichamento 06 – FICHAMENTO DO TEXTO “THE SHALLOWS”, DE NICHOLAS CARR

FICHAMENTO DO TEXTO “THE SHALLOWS”, DE NICHOLAS CARR

João Gabriel de Abreu e Tréz – Comunicação Social, Jornalismo.

Professor Riverson Rios

Teorias do Jornalismo

18/09/2014

O autor inicia seu texto propondo um panorama sobre a década de 60, especificamente sobre a figura de McLuhan, acadêmico da época, que provocava polêmicas e até hoje é controverso. A sua célebre frase “o meio é a mensagem” é difundida atualmente sem a devida reflexão sobre seu conteúdo. Segundo Carr, McLuhan apenas sabia que as pessoas sempre acabam se envolvendo no conteúdo trazido por um novo meio de comunicação que surge. Interessam-se pelo que é “dito” através dele, e não pela tecnologia que o faz existir. Foi assim com o rádio, a TV, o telefone, e é assim com a Internet. Assim como com os primeiros citados, onda havia detratores e admiradores, a Internet também é alvo dos mais extremos afetos: uns a louvam como a ferramenta de uma era de ouro, baseada na colaboração e na democracia, enquanto outros a taxam de medíocre e estimuladora do narcisismo e das informações rasas. Ao descolarmo-nos da visão estrita ao conteúdo e considerarmos a tecnologia em si, podemos perceber, como McLuhan declarava, o quanto um meio pode influenciar nossas escolhas e até mesmo nossa própria personalidade.

Passamos horas dos nossos dias, dias dos nossos anos, anos das nossas vidas completamente conectados à Internet. Coisas que costumávamos fazer presencialmente no nosso cotidiano passam a serem feitas preferencial ou até exclusivamente pela rede. A cada vez mais, ficamos dependentes da Internet e moldamos nossa mente e nosso modo de viver a partir das características dela. Como o autor diz, fica difícil focar em um texto mais longo ou em algo mais profundo porque estamos “programados” para assimilar as informações da forma que ocorre na rede. Para muitos usuários, inclusive pesquisadores e acadêmicos, como nos exemplos recolhidos por Carr, a leitura completa de um livro passa a ser pouco essencial, já que o conteúdo adquirido na web a partir da navegação por hiperlinks passa a suprir as demandas intelectuais deles. Mesmo estudantes, que deveriam ter a leitura como uma das principais ferramentas de aprendizado, conseguem passar sem livros. Pesquisas citadas por Carr indicam que os estudantes baseiam suas vidas acadêmicas, profissionais e sociais na Internet, usando as redes sociais como principais potencializadores desse movimento.

A importância das tecnologias em nossa vida é inegável. Porém até mais do que as tecnologias em si, devemos refletir sobre a influência que elas causam em nossos cotidianos – o objeto de estudo seria justamente essa influência, e não o produto em si. A vida só é como é hoje por uma série de avanços tecnológicos que ocorreram no decorrer do tempo, mas não aqueles mais óbvios e recentes, como a televisão e os computadores. A produção de mapas, a medição do tempo, as grandes construções, tudo isso que hoje parece tão comum à nossa realidade um dia foi visto como um grande avanço tecnológico. Ao assimilarmos tão fortemente essas tecnologias a ponto de não pararmos para conceber uma vida sem eles, percebemos o quanto moldamos nosso cotidiano a partir das tecnologias. É assim que Carr elenca suas ideias e é assim que ele consegue nos convencer do poder da Internet na vida de seus usuários. Quando deixamos de usar nossa memória para gravar números de celular e delegamos essa tarefa a uma agenda eletrônica ou quando deixamos de usar nossas capacidades de perceber o espaço para chegar a um local e apoiamos nossos caminhos somente a um GPS, passamos a enfraquecer o poder de nosso cérebro e tornamo-nos “preguiçosos intelectuais”. “Desaprendemos” a memorizar, a escrever de próprio punho, a fazer cálculos, enfim, desaprendemos uma série de coisas porque, agora, temos máquinas que tornam o processo mais rápido e nos economizam tempo. Esse tempo que “ganhamos”, por sua vez, é gasto com o quê? Muito possivelmente, navegando em sites de notícias e entretenimento, se divertindo em jogos eletrônicos e afins.

Essa dependência, até mesmo nos momentos de ócio de lazer, que temos em cima das novas tecnologias deve ser urgentemente repensada. Não que a saída seja deixar de usá-las, pelo contrário, pois no atual panorama, uma vida sem redes sociais e smartphones é difícil, já que a partir delas ocorrem as comunicações sociais e profissionais. O que deve ser feito é uma reeducação referente à utilização desses meios, para que o “mal” já feito se minimize e os bens superem-nos.

Exercício 02 – O crowdfunding

definição para iniciantes do que é Crowdfunding, para o livro colaborativo da turma.

crowdfunding

Apesar de ser mais conhecido pelo termo em inglês, o crowdfunding tem um equivalente em português que revela basicamente aquilo que é: financiamento coletivo. A própria tradução do inglês também já é esclarecedora: “crowd” significa multidão, e “funding”, financiamento – ou seja, um financiamento feito por uma multidão.

A ideia em si não é nova e nem tem relação restrita à cibercultura: campanhas de filantropia famosas ou mesmo as “vaquinhas” onde muitos ajudam são exemplos desse tipo de atividade num período anterior ao da web. Entrando ainda mais na história, podemos citar também o financiamento de artistas feito por políticos e pessoas da sociedade na Itália, no que ficou conhecido como mecenato. A colaboração, relacionada intimamente com a ideia de crowfunding, também é algo inerente à natureza humana. O que no passado era mais restrito à fisicalidade, hoje em dia ultrapassou as barreiras físicas e ocorre das mais variadas maneiras com a web. Essas características, com o advento da Internet, tomam novas proporções – o próprio crowdfunding em si foi intensamente afetado pelas características da rede. O grupo que colaborava financeiramente já não era restrito a um espaço físico específico, como uma caixinha de doações colocada numa cantina ou pedidos presenciais de dinheiro a partir apenas do contato físico. Essas colaborações passaram a ser ampliadas, estendidas, por conta do caráter global (e obviamente virtual) da web.

Além dos precedentes não relacionados ao mundo da cibercultura, uma das principais influências para o crowdfunding como é conhecido hoje é o chamado crowdsourcing, onde ocorria a obtenção de serviços ou ideias a partir das comunidades on-line. Finalmente, uma definição básica do que é, de fato, o crowdfunding, segundo Roebuck (2011):

“Crowdfunding (às vezes chamado de crowd financing, crowdsourced capital, ou street performer protocol) descreve a cooperação, atenção e confiança coletiva de pessoas em rede que arrecadam seu dinheiro e outros recursos, geralmente via Internet, para apoiar esforços iniciados por outras pessoas ou organizações. Crowdfunding acontece por uma variedade de motivos, desde auxílio a desastres; artistas procurando apoio dos fãs; campanhas políticas, criação de uma companhia startup ou desenvolvimento de um software grátis.” (ROEBUCK, 2011)

Ou seja, no financiamento coletivo via web, os usuários colaboram financeiramente e por vontade própria para a realização de projetos pensados por outros usuários. Essa colaboração passou a acontecer através de sites especializados nesse tipo de arrecadação, onde os criadores dos projetos (como dito por Roebuck, a variedade de ideias postas em crowdfunding é imensa – o projeto pode ser artístico, político, humanitário, tecnológico, enfim…) disponibilizam uma breve descrição do que pretendem fazer e estipulam uma meta de arrecadação. Às vezes, os autores não se limitam à descrição e adicionam ao “perfil” do projeto coisas relacionadas a ele para estimular a colaboração dos usuários – em financiamento de filmes, por exemplo, os cineastas pode fazer um pequeno teaser de alguns minutos para ilustrar suas ambições aos colaboradores. Além desse perfil básico, há ainda um ponto que chama a atenção no crowdfunding: os criadores do projeto estipulam também recompensas aos colaboradores, que dependem do valor doado. Para uma melhor ilustração do crowdfunding, tomo como exemplo o projeto de clipe do cantor Leo Cavalcanti para a música “Inversão do Mal” (link disponível na bibliografia).

No perfil do projeto, vemos inicialmente um vídeo de pouco mais de 2 minutos, onde o cantor e compositor, enquanto imagens gravadas possivelmente para funcionarem como amostras do videoclipe, apresenta-se aos usuários e diz de sua vontade de filmar um videoclipe da música citada. Ao lado, está a quantidade já arrecadada, a meta do projeto, o número de “investimentos”, o prazo e um botão para “Contribuir agora”. A descrição reforça o pedido do cantor no vídeo, mas de modo mais explicado, justificando o motivo de apelar para o crowdfunding, bem como mostrando fotos do cantor. Finalmente, ao lado direito da tela, aparece a lista das “recompensas” destinadas aqueles que colaborarem com o projeto. Para aqueles que doarem até R$25,00, o benefício é ter seu nome na parte de agradecimentos no final do vídeo e na conta oficial do cantor no Facebook; já quem doar acima de R$1500,00 ganhará um “show voz e violão” particular de Leo Cavalcanti ou uma “serenata personalizada”, com a chance de definir a setlist, além dos agradecimentos ao final do vídeo e no Facebook. Como vimos, e obviamente, quanto maior o valor, maior a recompensa. É bom atentar para o fato de que cada recompensa possui um número máximo de investidores – no caso das citadas, respectivamente, o número máximo de colaborações é de 200 usuários e 30 usuários.

Como dito anteriormente, são inúmeros os sites que oferecem esse tipo de serviço, tanto no Brasil quanto no mundo. Os mais famosos nos dois âmbitos, respectivamente, são o Catarse, que se auto intitula “A maior comunidade de financiamento coletivo do Brasil”, e o Kickstarter. O layout de ambos é até parecido, e eles seguem a mesma linha, aceitando projetos dos mais variados tipos, desde relacionados à arte, cinema, educação, esporte, entre outros. Um dos pontos mais interessantes do Catarse é justamente a pesquisa “Retrato do Financiamento Coletivo no Brasil”, feita pelo próprio site em parceria com a empresa Chorus, sobre o panorama do crowdfunding no Brasil. A pesquisa, feita com mais de 3000 usuários, revela que a maior parte dos projetos vem da região Sudeste do país, com 63%. Em segundo, muito atrás, com 20%, vem a região Sul. O perfil básico de um usuário que colabora com o crowdfunding, finalmente, é: homem (59%), de 25 a 30 anos (31%) e com curso superior completo (39%). Um dos dados mais interessantes disponíveis na pesquisa é de quais áreas vêm a maior parte dos projetos do site: dividindo o primeiro lugar, com 10% cada, estão as áreas de Comunicação e Jornalismo, Administração e Negócios e Web e Tecnologia. Além disso, a pesquisa revela que as pessoas têm mais tendência em colaborar com projetos artísticos e culturais.

Além desses dois, mais conhecidos, existem diversas outras opções de sites, como o Vakinha ou o Benfeitoria. Um movimento interessante de ser notado é o da segmentação, característico do ciberespaço. Sites de financiamento coletivo para causas específicas são cada vez mais comuns. Como exemplos, cito o Bicharia, que foca no financiamento de projetos que envolvam animais carentes e abandonados, o Queremos!, onde os fãs de artistas nacionais e internacionais se juntam e demonstram o interesse em assistir a shows deles, – o que revela claramente o movimento de importância do fã no atual panorama da web – e finalmente, como exemplo extremo, o Vaco Dívida Zero, voltado exclusivamente para “Quitar TODOS os débitos do Vasco junto à Fazenda Nacional inscritos em dívida ativa da União”, segundo descrição oficial.

BIBLIOGRAFIA

BRAGA, Juliana; BABINI, Fátima; RIOS, Riverson. Crowdfunding: o financiamento colaborativo no projeto “Achados e Perdidos”. 2012.

Clipe “Inversão do Mal” no Sibite. Disponível em <http://www.sibite.com.br/campaigns/inversao-do-mal/>. Acesso em 17 de setembro de 2014.

LINKS IMPORTANTES

6 sites de crowfunding para financiar seu projeto. Disponível em <http://exame.abril.com.br/pme/noticias/6-sites-de-crowdfunding-para-financiar-seu-projeto#1/>. Acesso em 18 de setembro de 2014.

Pesquisa “Retrato do Financiamento Coletivo no Brasil”. Disponível em <http://pesquisa.catarse.me/>. Acesso em 18 de setembro de 2014.

Mapa do Crowdfunding. Disponível em <http://mapadocrowdfunding.tumblr.com/>. Acesso em 18 de setembro de 2014.

SITES CITADOS NO TEXTO

http://www.catarse.me/pt/projects

https://www.kickstarter.com/

http://www.vakinha.com.br/

http://benfeitoria.com/

http://www.bicharia.com.br/

http://www.queremos.com.br/

http://www.vascodividazero.com.br/